Aporias do testemunho e inscrições do trauma: a representação da diáspora africana em Eu vou, tu vais, ele vai de Jenny Erpenbeck

Aporias do testemunho e trauma na diáspora africana em Eu vou, tu vais, ele vai

Aporias do testemunho e inscrições do trauma: a representação da diáspora africana em Eu vou, tu vais, ele vai de Jenny Erpenbeck

Autor(es): Vicente Azevedo de Oliveira Dalle Molle
Orientador: Márcio Miranda Alves
Quantidade de visulizações: 3

A presente pesquisa investiga a representação da narrativa do trauma e da diáspora africana na obra contemporânea Eu vou, tu vais, ele vai, de Jenny Erpenbeck. O problema central reside na natureza aporética do testemunho, em que a violência extrema de catástrofes históricas gera uma impossibilidade de narração, resultando em sujeitos emocionalmente fragmentados e memórias marcadas por lacunas profundas. O objetivo é analisar como as experiências catastróficas são processadas e traduzidas para o campo simbólico no romance de Erpenbeck, identificando manifestações sintomáticas do trauma sob a perspectiva da relação entre o professor Richard e refugiados africanos. A metodologia adotada compreende uma análise qualitativa e documental fundamentada nas teorias de Márcio Seligmann-Silva (2003; 2008) sobre a política da memória e o testemunho como condição de sobrevida, além de dialogar com os conceitos de Carlos Cardoso (2004) sobre a cidadania de submissão e as críticas de Hakim Adi (2020) ao modelo de Estado-nação eurocêntrico. Os resultados evidenciam que o trauma se manifesta por meio de núcleos de diálogos em inglês; como as expressões "broke the memory", "cut" e "life is crazy", que funcionam como marcas de uma ruptura identitária e da dificuldade de traduzir a catástrofe para a língua oficial do país de acolhida. Em personagens como Awad, a expressão "broke the memory" simboliza a destruição física e psíquica de sua história; para Raschid, o termo "cut" sintetiza o corte abrupto de seus laços familiares; e para Osarobo, a repetição de "life is crazy" opera como mecanismo de defesa diante do real traumático e da culpa do sobrevivente. Essas fraturas linguísticas evidenciam como o trauma atua como uma memória de um passado que não passa. Conclui-se que a obra de Erpenbeck funciona como um dispositivo testemunhal que utiliza a literatura como o escudo de Perseu: uma metáfora para a mediação estética necessária para enfrentar o horror do real. Assim como o herói mítico precisou fitar a Górgona Medusa apenas pelo reflexo em seu escudo para não ser transformado em pedra, a literatura permite que o sobrevivente se aproxime do trauma de forma indireta e suportável. A narrativa literária preenche o vácuo deixado pela burocracia estatal excludente, permitindo que o refugiado deixe de ser um mero dado estatístico para se tornar sujeito de sua própria história e agente de resistência política contra o apagamento histórico da diáspora africana.

Palavras-chave: Narrativa do trauma, Testemunho, Diáspora